Aux données, citoyens!

Cidades são fascinantes pois são temporais. Nos conectamos com elas através de sua história, não de suas ferramentas. Nos conectamos com pessoas, não com aplicativos. Não existirá Smart City sem Smart Citizens

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© Gleb Kuznetsov

Smart Cities são a coqueluche das discussões que envolvem tecnologia e inovação. De eventos globais como SXSW e CES à congressos municipais e feira de ciências escolares por aí.

Muitas são as abordagens, mas sem dúvida o discurso predominante se dá sobre nosso completo fracasso com relação as cidades e que a tecnologia de alguma forma irá nos redimir, afinal sem ela, não passaremos de uma proposta tristemente mal sucedida.

A possibilidade de reorganizar os nossos mundos através de mega projetos será sempre sedutora, seja para arquitetos, urbanistas, engenheiros, políticos e claro, publicitários. Existe sim oportunidades para novas ideias e é óbvio que ninguém vai querer ficar de fora.

Estas soluções caixa-preta, que prometem resolver nossos problemas, parecem estar de certa forma desalinhadas com os fundamentos das invenções e inovações, baseadas na cultura do erro, do teste e da experimentação. 

Conectar propostas globais com contextos locais só acontecerá de fato quando as iniciativas forem lideradas por seus habitantes, que garantirão soluções mais homogêneas, admitindo assim as diferenças.

A doação de dados parece já ser algo irreversível e inevitável. Isso nas mãos dos cidadãos, mais do que tecnologia, passa a ser um emblemático ato de cidadania. Uma vez que algoritmos refletem uma visão de mundo única e individual, se não soubermos entender e propor, independentemente das nossas profissões, estaremos fadados a sermos organizados pela visão de poucos.

Pouco tempo atrás, dizíamos que não havia necessidade de aprendermos inglês ou computação. Hoje, é claro ser impossível. A linguagem das máquinas passa a fazer parte das nossas vidas. Dominá-las não é obrigatório, mas não saber utilizá-las acabará por nos reduzir a poucos espaços da sociedade, principalmente, não nos colocando dentro de uma discussão extremamente importante para o futuro das próximas gerações.

Grande parte das iniciativas inteligentes giram em torno de transporte, segurança e energia. Pouco se fala de cultura e arte – o que é estranho –, pois cidades do futuro do ponto de vista funcional parecem estar muito mais conectadas com o conceito de “Smart Jails”. 

Cidades são fascinantes pois são temporais. Nos conectamos com elas através de sua história, não de suas ferramentas. Nos conectamos com pessoas, não com aplicativos. Não existirá Smart City sem Smart Citizens.

A autonomia dada por esta revolução através de casas autônomas, fazendas autônomas e carros autônomos, proclama nossa liberdade, mas também nossa isenção. Hannah Arendt dizia que fazer o mal é o simples fato de não fazer o bem.

Se os cidadãos inteligentes não participarem ativamente da construção destes novos modelos, de uma sociedade mais justa, mais livre com mais tecnologia, perderemos uma grande chance de darmos mais poder as pessoas, correndo o sério risco de obedecermos ainda mais.

Já que se trata de uma revolução: Aos dados, cidadãos!

 

Publicado no Meio & Mensagem
http://www.meioemensagem.com.br/home/opiniao/2018/05/03/aux-donnees-citoyens.html

 

Bibliografia

Arendt, Hannah; Eichmman em Jerusalém: Um relato sobre a banalidade do mal. 1999. Tradução: José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 

Beiguelman, Giselle. Da cidade interativa à cidade participativa, 2016. https://www.academia.edu/35946552/Da_cidade_interativa_%C3%A0_cidade_participativa

Greenfield, Adam. Against the smart city. 2013. New York: Verso Books. Kindle Edition

Rennó, Raquel. Smart cities e big data: o cidadão produtor de dados. 2016. URBS. Revista de Estudios Urbanos y Ciencias Sociales, 6(2), 13-24. http://www2.ual.es/urbs/index.php/urbs/article/ view/renno