Storytelling e Internet de várias coisas

O destino das histórias e das coisas parece estar sendo escrito bem diante dos nossos olhos, mas com uma linguagem conhecido por poucos.

© Oliver Sin

© Oliver Sin

Acredito ser raro que, ao escrever uma história, a pessoa tenha consciência de que se trata de um best-seller no exato momento em que está se escrevendo. Mais raro ainda é poder viver uma história que um dia se tornará um best-seller.

Minha introdução ao tema diz respeito a vivermos uma época Nobel, na qual as coisas estão mudando radicalmente. Da alimentação à dieta. Do exercício físico à física. Da ciência à religião. Nada passará despercebido e, pode ter certeza, influenciará de alguma forma a maneira como vivemos e contamos nossas histórias daqui pra frente.

Vivemos um momento único para roteiristas-arquitetos-multi-plataforma. Se isso existe, não sei. O que posso afirmar é que o jeito que se escreve hoje dificilmente será o jeito como escreveremos amanhã. Um desses arquitetos de histórias chamado Lance Weiler, que tem em seu currículo projetos interessantíssimos, diz que "Cineastas serão capazes de colocar camadas de histórias sobre o mundo real e que objetos inanimados e locais físicos darão oportunidade de engrandecer histórias e envolver o público".

Isso vem acontecendo em plataformas do nosso dia a dia, como computadores e celulares. Uma coisa é fato, nos caminhos que a tecnologia abre, a narrativa segue. O vídeo-game, por exemplo, já abocanha quantias massivas de dinheiro e, sem sombra de dúvida, figura como o conteúdo mais imersivo e envolvente que existe. Diga-se de passagem, em 2010, a humanidade gastava 3 bilhões de horas semanais jogando vídeo-game, conforme indicam os estudos da pesquisadora Jane McGonial. Mais do que isso, gasta-se com games mais de 10 mil horas até se alcançar a adolescência. Um treinamento que, aos olhos dos baby-boomers, não significa muita coisa, mas, segundo Malcolm Gladwell, jornalista britânico que cunhou o conceito, é o tempo necessário para se tornar excepcional em qualquer tarefa.

Tudo isso para dizer que estas camadas de realidade estão sobrepostas em nossas vidas e indissociáveis entre si, ou seja caro leitor, o real intuito deste texto é atentar para uma revolução que deixou de ser uma projeção para fazer parte da nossa realidade. A tal "Internet das coisas" ou Internet of Things - IoT, que, em primeira mão, consiste em artefatos conectados com a web que estão sempre ligados e interagem entre si e com seres humanos.

Neste futuro que já alcançamos, esses objetos irão não apenas mudar a nossa forma de ler histórias, como também mudarão as histórias em si. Através da construção de uma nova identidade sem objetivo definido, deixaremos de tratar diversas situações como ficção científica transformando-as em cenas do nosso cotidiano e personagens centrais para o desenvolvimento de suspenses, dramas e comédias. Diga-se de passagem, hoje, só no Brasil, temos mais de 70 milhões de smartphones. Ou seja, pessoas conectadas à web, servindo como sensores e interagindo com o mundo em duas camadas distintas da realidade. Para esta outra consciência, somos apenas os sensores devolvendo informações para uma história que está sendo construída sem o consentimento.

Nós experimentamos o nosso meio ambiente e o que está nele através dos sentidos físicos, mas percebemos nosso ambiente, o que é bom ou ruim sobre ele, através de histórias. Pensando nisso, podemos recodificar o significado original de praticamente todos os objetos e evoluir esta integração com o passar do tempo, e conforme eles se integram a nossa vida. Diversas metodologias são necessárias para estudar como narrativas podem ser construídas entre pessoas e objetos, uma vez que ambos são ativos e passivos a interações, o que permite múltiplas continuidades e distintos desfechos.

Uma coisa importante é que o storytelling da internet das coisas requer uma adaptação ao meio, pois lidará com novos contextos, uma vez que existem interações por parte das pessoas, dos objetos e por vezes até do próprio ambiente. Uma história mais complexa, que requer arquitetos roteiristas, em que, por vezes, as pessoas poderão ser o cenário e os objetos seus personagens. É o conteúdo agindo como software em vez de fazer seu papel enquanto literatura.

Com "coisas" sensíveis a estímulos podemos, com o passar do tempo, modificar seu significado original e evoluir com sua significância a medida em que interagimos e integramos eles às nossas vidas, pois, em algum momento, essas coisas poderão aprender com nossa experiência e a partir daí, meu caro, o significado das coisas em si mudará.

A web veio para servir a humanidade, diz Tim Berner-Lee, o pai da internet. Ela não nasceu para poucos, para ser espionada e muito menos controlada. Estas "coisas", também chamadas de social machines, vieram para ficar e não devem ser estudadas de forma displicente. Definitivamente, este não será o papel delas em nossa história.

A grande revolução da internet das coisas irá se dar quando deixarmos de enxergá-la através de um microscópio para enxergá-la através de um telescópio, diz John du Pre Gauntt. Hoje, vemos apenas redes agregando valor a um produto. Isso acontece quando ligamos um carro e ele se comunica com o fabricante para fazer um diagnóstico ou um porta guarda-chuva que diz se vai chover. Uma teoria "produtocêntrica", na qual todo universo gira em torno do produto, assim como aconteceu com o Google Glass.

A forma mais inteligente parece indicar para uma teoria "redecêntrica", na qual os produtos agregam valor às redes e a ação encontra-se quando os objetos interagem com outros objetos, locais e pessoas, e eles deixam de estar apenas conectados para serem a conexão e se tornarem sociais em si. Com uma fonte de dados compartilhada e design de produtos que envolvam diferentes públicos, podemos ir muito longe, já que existem milhões de produtos prontos para ser fonte para as pessoas. Porque não ter um guarda-chuva que acende o cabo nos indicando para pegá-lo pois pode chover?

A monetização em torno do conteúdo foi pensada para desktops e telas, mas, ao que tudo indica, a comunicação entre as parte se dará inicialmente através de alertas e não conexões a endereços. A rede social já é um prenúncio deste caminho. Não nos conectamos mais a um endereço. Ela simplesmente já está lá quando ligamos nosso celular ou nosso computador. Tudo hoje está tageado, faz parte de um perfil e tem preferências.

De acordo com Peter Semmelhack em seu livro Social Machines, as redes sociais em um futuro próximo não serão constituídas apenas de seus amigos e familiares, mas também de geladeiras, carros e quem sabe mais o futuro nos permita. As máquinas sociais serão os catalisadores para novas formas de networking.

Isso já tem acontecido. Alguns produtos têm saído de fábrica com uma identificação física, que pode ser um código de barra, QRcode, NFC, RFID, BLE, dentre outros. Uma vez com identificação, o canal de comunicação passa a ser o objeto em si e a rede é estendida para além de um site ou uma rede social, e este ativo com relação a ambos. Uma conexão tão intrigante que une produto, usuário, mídia, canal de distribuição em um só conjunto. Uma experiência tão rica, com tanto valor em si mesma, que a estratégia de desenvolvimento se confunde com a própria estratégia de comunicação e vendas.

Uma mudança radical na construção de carreiras, para uma nova geração de profissionais híbridos e um posterior refinamento natural das funções já é realidade. Óbvio que isso não é nenhuma novidade, temos uma enchurrada de novas proporções versus a uma extinção em massa de outras. É inevitável. Teremos que incorporar isso as nossas vidas e principalmente para esta nova geração de comunicadores, profissionais infinitamente mais detalhistas. Dificícl ser generalista e detalhista ao mesmo tempo, mas ao que tudo indica, é assim que as coisas serão.

Que comportamento humano desbloqueará produtos ou serviços conectados? Que informações uma pessoa precisa agora e de que forma interagir significativamente com um produto ou serviço conectado? Como vamos preparar as pessoas para viver em parceria com Big Data e Inteligência Artificial? Estes também serão problemas que precisaremos resolver para poder contar histórias sem paracer que estamos falando "tecniqunês" da informática e da engenharia. Sei que é difícil, mas mo que você decida abandonar tudo e ir para o campo, dificilmente irá se safar, afinal a revolução possui tentáculos por todos os lados.

A internet das coisas nos permite, em outro aspecto, fazer algo inimaginável até pouco tempo. Não dependemos mais da indústria para suprir a nossa necessidade de produtos. Podemos, por conta e risco, desenvolver nós mesmos segundo nossas necessidades. Ou seja, por que abdicar de um sistema de irrigação de sua horta em sua comunidade de permacultura, ou, quem sabe, usar as mesmas plataformas de prototipagem que brotam por aí como Arduínos e Raspberry Pis, para alimentar os animais do seu sítio? Parece que núcleos autônomos têm mais condições de florescer e, por esse caminho, identificamos uma nova história de pessoas voltando para o campo a fim de construir uma vida mais ligada à terra e aos meios de produção de alimentos orgânicos.

Em primeiro de março de 2012, o Monkey House em Nova York fechou após 111 anos . Em vez de colocar todos os macacos em um só lugar, o Jardim Zoológico de Bronx determinou que os macacos deveriam viver de acordo com seu habitat natural. Seria mais humano para eles e mais educativo para nós. Agora, quando você vai para o Jardim Zoológico de Bronx, os macacos são distribuídos por vários habitats em vez de serem colocados em um edifício.

Nós somos primatas também. Nós crescemos e convivemos com histórias para a coesão social. Nós compartilhamos histórias pelo simples prazer de estarmos juntos e investimos em objetos com histórias para torná-los distintos e valiosos. Estes produtos já estão por aí. Temos portas que abrem ao nos aproximarmos delas. Cancelas que levantam ao aproximarmos nossos carros, falta muito pouco para que possamos ler notícias que tem a ver com a gente no espelho do banheiro enquanto escovamos nossos dentes ou ter escovas de dente que conversam entre si e nos ensinam melhores formas de escovar pois aprenderam com a experiência de outras escovas.

Qual é o ponto de vista das máquinas sobre as coisas e como elas podem nos ajudar? É isso que iremos viver em breve e, quem sabe num futuro muito próximo, você, leitor, esteja lendo uma história escrita por um produto e não a opinião de um humano sobre ele. Falta pouco para lermos um best-seller não humano.

 

Bibliografia:

TED: Gaming can make a better world - Jane McGonigal
https://www.ted.com/talks/jane_mcgonigal_gaming_can_make_a_better_world?language=en#t-72889
http://filmmakermagazine.com/37083-listen-as-your-story-talks-to-the-internet/#.Vh5sArRViko
http://postscapes.com/storytelling-and-the-internet-of-things
http://www.oreilly.com/pub/e/3442
Mobile Report Nielsen IBOPE Julho/15
https://medium.com/iot-storytelling/storytelling-for-the-internet-of-things-7bc3d9e083dc
Object Narratives: Alexis Lloyd (The Future of StoryTelling)
2013)https://www.youtube.com/watch?v=2zGghmoYvdg
http://www.geoffreylong.com/wordpress/archives/1981